quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Temer e o voto do medo


Somos uma sociedade com medo. Esta palavra será o grande lema das eleições de 2018, caso elas realmente ocorram. Todos estão com medo de algo. Quem tem medo odeia. Queremos eliminar aquilo do que temos medo. Não à toa as pessoas que têm medo e ódio de Lula aplaudiram sua condenação sem provas. Não à toa uma parcela significativa da população aplaude a intervenção federal no Rio. Elas têm medo e querem eliminar aquilo do que têm medo. A qualquer custo. O medo é maior do que o respeito à lei ou ao próximo.
Somos uma sociedade consumista. A procura da felicidade se dá quase sempre pelo consumo de um bem ou de um serviço. Pagamos por privilégios. A real e principal causa da nossa violência é o consumismo. Mas ninguém fala sobre isto. Manter-nos sedentos por consumir sempre algo que ainda não temos é fundamental para manter a sociedade girando. Como em Admirável Mundo Novo, não reaproveite nada. A publicidade infantil nos ensinou desde pequeno a não gostarmos do que somos e a mudarmos isto comprando algo. É como uma doutrinação. Queira o melhor brinquedo, a melhor roupa. Depois o melhor carro, o melhor relógio. Comprar é ser bem-sucedido. Quem não tem é perdedor. É melhor viver uma vida curta desfrutando do que há de melhor ou viver uma vida longa se sentindo um perdedor. O Brasil melhorou muito seus dados sociais a partir de 1994 e especialmente após 2002. Esta melhora não resultou em diminuição da violência. Pelo contrário, a inclusão a partir da expansão do consumo da era Lula só viu aumentar os casos de violência. O Ceará, estado que mais evoluiu em educação na última década, tendo 77 das 100 melhores escolas públicas do país, passa por um surto de violência. Uma falha da esquerda é não enxergar que a violência brasileira não é totalmente fruto de questões sociais, embora, obviamente, ela tenha grande importância.
Somos uma sociedade desigual. Somos formados com uma forte herança escravista, com uma pequena elite preguiçosa e sanguessuga explorando uma grande massa acostumada a ser explorada. Muitos com pouco, poucos com muito. Aqueles, porém, não questionam o sistema que os explora, sonhando um dia assumir o papel de explorador. Como numa novela, em que a mocinha boazinha ganha como prêmio no final a riqueza. A mídia faz seu papel. Estimula o consumo e incentiva os valores de uma sociedade desigual. O programa da apresentadora loira e linda quase sempre tem em seu intervalo uma propaganda de tinta de cabelo ou de remédio para emagrecimento. O jornal que fala sobre as mazelas da saúde pública quase sempre tem alguma propaganda de plano de saúde. O mesmo com educação e outras coisas. Quem sustenta a mídia é a publicidade. Ela depende do nosso consumismo e nos faz violentos.
Somos uma sociedade dependente da violência. O sentimento de insegurança gera empregos. Seguradoras são hoje anunciantes importantes. O impacto, digamos, num estado quase utópico, do fim da violência seria gigantesco em nossa economia. É fundamental combate-la, ou ao menos fingir que se está combatendo, mas mantendo o cidadão comum com medo. Tanques na rua cumprem esta função. Melhoram a sensação de segurança. Mas ninguém vai deixar de pagar seguro do carro por causa disso.

Medo e consumismo. Intervenção militar e crescimento do PIB. O estado visto como alguém que nos protege daqueles que temos medo e que me ajuda a comprar mais bugiganga. Destrói-se a Previdência para agradar ao mercado financeiro. Temer consegue ler nossa sociedade como ninguém. Não duvidem de sua capacidade de fazer política. Sonha com a reeleição e sabe que o medo é das melhores armas para atrair a sociedade que hoje o detesta. Atrai os bolsonetes que querem sair matando todo mundo e os barões do mercado que temem Lula. Mesmo que para isto tenha que brincar com o pouco que nos resta de democracia. O fracasso do Exército significará uma vergonha para nossas Forças Armadas. O sucesso, a volta de uma ideia monstruosa de que o Exército é capaz de solucionar os problemas que a sociedade civil não soube resolver. O mesmo sentimento que gerou a sucessão de golpes militares que tivemos em nossa história. Sociedades com medo e ódio não se importam com a democracia. O Brasil normalmente é assim. O que vivemos entre 1994 e 2014 foi uma breve exceção em nossa história. Temer é a face medíocre de uma era medíocre. Não duvidem que o Fora, Temer seja respondido por um Fica, Temer em outubro.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Os perigos e a demagogia da intervenção federal no Rio


A semana de Carnaval estava ruim para Michel Temer. A votação da Reforma da Previdência, que o presidente considera como sendo seu possível principal “legado”, caminhava para uma derrota. Mesmo abrindo os cofres para deputados “indecisos”, Temer rumava ao fracasso em uma votação tão impopular num ano eleitoral. Ao mesmo tempo, o Rio vivia uma onda de violência que até o momento não se sabe realmente se foi tão grande quanto o que foi alardeado pela grande mídia, principalmente na Globo. Até o momento, o único dado que li sobre o assunto diz que houve um aumento de 4% nos registros de violência no Rio no período entre 2017 e 2018. Não que isto seja insignificante, mas a sensação é de que foi bem mais se assistirmos apenas os noticiários globais. O objetivo maior me parece ser atacar o arquirrival Marcelo Crivella, ligado à Igreja Universal (longe de mim defender Crivella, aliás, sua postura de abandonar o Rio durante o maior evento da cidade é completamente irresponsável e mostra o enorme erro cometido pela população carioca em eleger um fanático religioso para a Prefeitura). Vendo o noticiário, Temer convocou o exército e fez aquilo que nenhum presidente, inclusive os legitimados pelas urnas, tiveram coragem de fazer em outros momentos de crise desde 1988: decretou uma intervenção federal.
A intervenção ajuda Temer por dois motivos. Adia a votação da Reforma, dando a Temer mais tempo para convencer ($$$$) mais deputados a votarem aprovando a Reforma, e aumenta a popularidade do presidente no curto prazo. Uma população má informada e com medo aprova este tipo de medida, “ao menos ele está fazendo algo”. Temer inclusive sonha com a reeleição e o histórico situacionista da população brasileira não pode desconsiderar completamente esta chance.
A intervenção prejudica o país por vários motivos. Citarei apenas alguns deles. O primeiro é mostrar como nosso governo não tem nenhum plano de longo prazo para resolver o problema. As outras vezes em que o Exército foi chamado para ajudar na segurança pública sem que houvesse intervenção, como ocorreu na Copa e nas Olimpíadas, não deixaram legado algum à segurança pública da cidade. Pelo contrário, a situação só piorou depois disso.
Em segundo lugar, não se incentiva um debate que mostre qual a parcela de responsabilidade do governo federal na situação em que se encontra o Rio de Janeiro. A culpa pela entrada de armas contrabandeadas em nosso território, por exemplo, é da Polícia Federal e do Exército, e aparentemente nada é feito e discutido sobre este assunto. Também não se discute a responsabilidade gigantesca que o governo federal tem ao ter forçado o estado do Rio de Janeiro a adotar uma agressiva política de austeridade fiscal que resultou em cortes na área de segurança pública.
Em terceiro lugar, como já comprovado pelas ações anteriores, o Exército não tem capacidade e conhecimento para lidar com segurança pública municipal. O que exatamente o Exército fará? Simplesmente vai ter tanque nas ruas? Qual o conhecimento que este interventor (nome assustador) tem sobre este assunto? Por que o governo federal não ajuda financeiramente da polícia carioca ao invés de chamar o exército para intervir? Até o momento não li nada a respeito.
Em quarto lugar, e para mim o mais perigoso erro, é que num momento de extrema fragilidade democrática, com um governo fajuto fruto de um impeachment picareta, dá-se força a um sentimento que existiu no Brasil até 1964, aquele de que o Exército é a solução para nossos problemas. Em todas as vezes em que as Forças Armadas interviram politicamente em nossa história, e não foram poucas, elas foram em algum momento convocadas por parte da sociedade civil para fazê-lo. Estávamos livres disso de 1985 até as manifestações dos patos contra Dilma, em que pela primeira vez desde o fim da ditadura um grande número de pessoas saiu às ruas pedindo a volta do Regime Militar. É o renascimento de um monstro adormecido, que tantas tragédias causou em nossa história.

O Brasil vive um momento de grande burrice. Ninguém reflete sobre nada. O Rio de Janeiro foi em 2017 apenas a 23ª capital mais violenta do país. VIGÉSIMA TERCEIRA. Se for para fazer intervenção, por que não em outros lugares? Por que não dá o mesmo ibope que dá a intervenção no Rio. Num momento em que acabamos de ver um bando de lunáticos e raivosos saindo às ruas vestindo verde-e-amarelo, bradando gritos nacionalistas e fascistas, pedindo impeachment sem crime (e conseguindo) e querendo intervenção militar, este ato circense de Temer só dá mais força para este grupo. A intervenção é um ato populista e autoritário, que não trará resultado efetivo algum. O Brasil não discute nada. E brinca com o perigo. Caminhamos para o abismo.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Bolsonaro, o mercado financeiro e o genocídio


 Jair Bolsonaro foi convidado para dar uma palestra a mais de mil executivos do mercado financeiro em evento patrocinado pelo banco BTG Pactual. Aquele que era presidido por André Esteves. Se você não lembra quem é ele, dá uma pesquisada no Google depois de ler este texto. Questionado sobre qual seria sua solução para a questão da criminalidade na Rocinha, o candidato à presidência disse que mandaria um helicóptero jogar panfletos dizendo que os bandidos tinham seis horas para se entregar. Após este período, sairia metralhando todo mundo que continuava lá dentro. A plateia riu e aplaudiu. A plateia riu e aplaudiu. Repetindo, a plateia riu e aplaudiu.
Em seu livro “Gostaríamos de informa-los que amanhã seremos mortos com nossas famílias”, sobre o genocídio dos tutsis em Ruanda em 1994, o autor Phillip Gourevitch tenta mostrar que todo genocídio é resultado de um processo histórico. Anos de retiradas de direitos resultam em um momento em que aqueles que são oprimidos restam apenas com a vida como direito, sendo o próximo e último passo “lógico” o extermínio. Mais do que isto, é um processo que tanto opressor como oprimido enxerga como natural. Hannah Arendt em “Origens do Totalitarismo” apresenta uma visão semelhante do que levou a população europeia a assistir passivamente, muitas vezes inclusive contribuindo, ao holocausto e porque não houve tanta resistência judaica ao extermínio que estava ocorrendo. Segundo ela, séculos de maus tratos levaram a própria população judaica a enxergar aquilo que ocorria com certa naturalidade.
Nunca antes no Brasil o ódio e o preconceito fizeram tanta parte do “debate” político. Coloco debate entre aspas porque acredito que seja impossível algum tipo de diálogo útil e produtivo com pessoas como Bolsonaro. A parte mais perigosa sobre o que acontece, o sintoma mais grave, é a forma natural como aceitamos o que é dito por ele e principalmente o forte apoio que ele encontra em diversos setores sociais. Sem Lula, tirado da corrida presidencial por um processo fajuto, Bolsonaro lidera a corrida eleitoral. Releia o primeiro parágrafo e reflita que é este candidato que lidera atualmente a disputa e que há uma chance real deste candidato ir ao segundo turno. E ninguém parece estar muito preocupado com isto. Num passado não muito distante, as frases do deputado sobre o estupro da deputada Maria do Rosário ou reclamando que a ditadura deveria ter matado FHC geravam ao menos declarações de repúdio na grande mídia e nos partidos. A frase com a proposta sobre o genocídio do líder nas campanhas presidenciais não gerou repercussão. A sociedade naturalizou o sucesso do fascismo. Talvez algum destes mil que riram e aplaudiram estarão em algum programa da Globo News dando dicas de economia, aliás.
O mesmo mercado financeiro que aplaudiu e riu da proposta de genocídio de Bolsonaro comemorou a condenação de Lula. Fará tudo para controlar o processo eleitoral. Responderá mal a qualquer avanço de um candidato progressista, rirá e aplaudirá do progresso do candidato fascista. Dinheiro e fascismo sempre andaram lado a lado. Ele ainda não prefere o fascista, mas já se mostra bem disposto a ir com ele até o fim. O mercado financeiro não dá muita importância para ética. Basta ver que as ações de produtoras de armas nos EUA sempre sobem quando assassinatos em massa ocorrem.
Todos nós conhecemos pessoas que pensam como Bolsonaro. Já ouvi diversas falando este tipo de barbaridades. Elas têm ódio e meio que se encontraram através das redes sociais e no processo de impeachment de Dilma. Víamos repetidamente gritos deste tipo ou outros pedindo intervenção militar nas passeatas do verde-e-amarelo de 2015 e 2016. A grande mídia repetia que eram passeatas “pacíficas”. Pois bem, as pessoas “pacíficas” encontraram a pessoa capaz de expor e saciar todo seu ódio. No fundo o que elas querem é um “Estado psicopata”.

Medo, consumismo e preconceito. Período assustador. Repetindo o que o candidato que lidera as pesquisas sem Lula disse num evento para o mercado financeiro. Questionado sobre qual seria sua solução para a questão da criminalidade na Rocinha, o candidato à presidência disse que mandaria um helicóptero jogar panfletos dizendo que os bandidos tinham seis horas para se entregar. Após este período, sairia metralhando todo mundo que continuava lá dentro. A plateia riu e aplaudiu. A plateia riu e aplaudiu. Repetindo, a plateia riu e aplaudiu.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Como o Brasil me transformou em petralha


Nunca votei no PT num primeiro turno de eleição presidencial. Minha primeira ida às urnas foi em 2002 e de lá pra cá, mesmo no auge da era Lula, em que ele tinha mais de 80% de popularidade, em nenhuma vez apertei 13 na urna num primeiro turno. Hoje, apesar de gostar muito de Ciro Gomes, tenho sentido uma enorme disposição de votar no PT num primeiro turno presidencial, seja em Lula ou em quem ele apoiar. O motivo é simples. O processo vivido no país a partir da incapacidade tucana em reconhecer a vitória de Dilma Rousseff em 2014 me transformou num petralha.
Sempre enxerguei qualidades e defeitos na gestão petista. Avançamos como país, e muito, no combate à fome, à desigualdade e em educação. Saímos do mapa da extrema pobreza e um número gigantesco de pessoas teve acesso ao ensino superior. Pioramos nas áreas de violência pública e de saúde. Na primeira, com participação óbvia do governo tucano de SP, que assistiu ao surgimento da maior facção criminosa da história do país dentro dos presídios por ela geridos. A maior falha petista nesta área, porém, está no incentivo ao consumismo, maior causa de nossa violência. Não à toa os dados deste assunto continuaram piorando enquanto quase todos os dados sociais evoluíam. Fora isto, também estou longe de ser um cara estatista. Acredito, por exemplo, que o processo de privatizações das rodovias estaduais promovido pela gestão tucana em SP é um grande sucesso.
Independente de erros e acertos, sou acima de tudo um democrata. Acho que todas as opiniões sobre erros e acertos em políticas públicas e sobre participação maior ou menor do Estado na economia são válidas. Respeito a vontade das urnas e o tipo de gestão por ela escolhido. Acredito também que a vontade da maioria sobre estes assuntos deve ser sempre respeitada, cabendo ao Poder Judiciário intervir nos outros poderes apenas para garantir direitos a minorias. Impedir uma ditadura da maioria, como diria Tocqueville.
O meu processo de petralhização (ou petralização, não sei se ponho h ou não, mas acho isso indiferente) começou com as eleições de 2014. A partir do momento em que o PSDB escolheu Aécio Neves como seu candidato, ficou muito claro que a prioridade naquele momento seria impedir sua vitória. Todo mundo sabia quem Aécio era. Sim, todo mundo. As pessoas que votaram nele para “combater a corrupção” são todas picaretas. Sim, todas. Se você argumentava que o Brasil estava indo para o caminho errado economicamente com Dilma, você merece consideração. Agora, se você está lendo este texto e usava este argumento contra a corrupção para votar em Aécio, você é picareta. Todo mundo sabia que Aécio era um playboy irresponsável, corrupto e de tendências autoritárias, que perseguiu diversos jornalistas em seu estado, que governava MG enquanto morava no Leblon. Fui de Marina no primeiro turno, apenas para tentar impedir Aécio de chegar ao segundo turno, e fui de Dilma no segundo, com toda convicção. A incapacidade de Aécio em aceitar a derrota e a forma como ele pôs fogo no país após o pleito mostraram que a minha análise sobre o caráter deste triste personagem da política brasileira estava correta.
Uma semana após a eleição, um pequeno grupo de jovens reacionários, bradando contra uma fraude que só existiu na cabeça deles, marcou sua primeira passeata pedindo o impeachment de Dilma Rousseff. Isto antes mesmo dela assumir. A mídia passou a incentivar estes jovens lunáticos, dando espaço para um deles inclusive em colunas “jornalísticas”. O PSDB abriu seu espaço para estes jovens enquanto o Poder Judiciário passou a ser idolatrado pela mídia. “Mais 4 anos de Dilma não dá”. E começou a guerra.
Dois meses e meio após a posse de Dilma, o movimento dos jovens lunáticos levaria mais de um milhão de pessoas para as ruas de São Paulo num domingo. A mídia passou a semana inteira convocando pessoas para as manifestações, “pacíficas e repletas de famílias”, como adoravam repetir os repórteres. Sem violência, segundo eles. Com placas defendendo a volta de ditadura e da tortura. Intervenção militar já. Algumas pediam a volta da monarquia. Outras placas traziam suásticas desenhadas. Manifestantes chamavam Dilma de todos os nomes. Pediam pena de morte, agrediam quem vestia vermelho, xingavam quem pensasse diferente. Para a mídia, isto não era violência.
O Poder Judiciário, único não-democrático e mais podre dos poderes, era cada vez mais endeusado. Surgiu um “herói”, o juiz que acusava e prendia os petistas corruptos. Um juiz que se põe acima da lei e ganha prêmios por isso. Um pequeno tirano. Enquanto os políticos de aluguel abandonavam o governo Dilma e já ensaiavam como voltar ao governo após sua saída, o juiz “herói” descumpria a lei e era idolatrado por isso. Realizou a condução coercitiva de Lula sem que este fosse anteriormente convocado para depor e, na talvez mais absurda medida deste processo todo, divulgou na mídia ilegalmente conversas telefônicas dele com a presidenta da República. Quem julga o juiz “herói”, afinal? Tudo isto na semana anterior à outra passeata gigantesca agendada pelos jovens lunáticos. Nesta mesma semana, uma revista semanal de informação trazia na capa a delação premiada de Delcídio Amaral, ex-senador petista, em que ele contava “tudo”. Um ano depois, o “tudo” se mostrou nada e a delação foi cancelada, mas serviu para inflar a classe média novamente. Lá estavam eles na Avenida Paulista de novo, vestindo verde-e-amarelo na passeata “pacífica” promovida pelos jovens lunáticos. Jair Bolsonaro, deputado fascista, foi ovacionado ao chegar ao local. Em seu voto na sessão de impeachment, homenageou o torturador que havia torturado Dilma na juventude. Isto numa sessão presidida por Eduardo Cunha, possivelmente a pessoa mais corrupta de todo o processo. O malvado favorito dos jovens lunáticos. Quem apoiou o impeachment apoiou tudo isto.
Passado o impeachment, era necessário impedir que Lula voltasse dois anos e meio depois. Legitimar o golpe. A mídia fez seu papel. Lula virou nas manchetes “o maior ladrão da história do mundo em todos os tempos”. O uso de manchetes mentirosas contra ele não é novidade, aliás. Quantas vezes não lemos ou ouvimos que ele estava preparando um terceiro mandato em 2010, ou que ele estava aparelhando o Judiciário (mesmo tendo indicado Joaquim Barbosa, que condenou vários petistas no Mensalão) ou que ele perseguia jornalistas (mesmo que nomes contrários a ele tenham efetivamente ganhado espaço na mídia por criticá-lo, como Diogo Mainardi, Rachel Sheherazade, Danilo Gentili, entre outros). E a principal, que seu filho seria dono da Friboi. Aquela que gravou Temer negociando e Aécio recebendo propina. A grande mídia brasileira foi na gestão Lula a precursora das Fake News, a arma hoje mais usada por bolsonetes e pelos jovens lunáticos.
Lula foi condenado pelo juiz “herói”. Por um apartamento que não é seu, por causa de uma reforma feita por uma construtora que queria vender este apartamento para ele. Sem provas, só com convicção. Um testemunho passou a servir para provar a posse de um imóvel. Num processo que gerou diversos debates no meio jurídico, Lula foi condenado por unanimidade na segunda instância, com concordância inclusive sobre a pena. Doze anos e um mês. Qualquer discordância poderia atrasar o processo. É preciso tirar Lula da jogada logo.
Um quinto do país votaria hoje em Bolsonaro, um candidato que defende a prática da tortura e diz que homossexualismo é uma doença que se combate com surra na infância. O mercado financeiro já se prepara para apoiá-lo caso não consiga emplacar o nome do governador tucano de SP citado no primeiro parágrafo, aquele da facção criminosa que hoje assusta o país. Já tentaram apostar num apresentador de TV, famoso por ser amigo de Aécio. Antes apostaram num lobista debilóide que, graças a um discurso de ódio, chegou à prefeitura da cidade que lotou a sua principal avenida seguindo os jovens lunáticos, que, aliás, hoje perseguem artistas e professores.

Veja a galera que odeia Lula e o PT. Olhe para a cara deles. Veja o rancor contra tudo que melhorou. Veja a forma como eles chamam todos de vagabundos, como expõem preconceitos, como só sabem argumentar xingando e gritando. Sou diferente deles e não quero estar ao lado dessa gente em situação alguma. Virei petralha, com orgulho!

sábado, 27 de janeiro de 2018

O POBRE NEOLIBERAL


Nos últimos dias passei a fazer uma análise do meu universo, ou seja, as pessoas que fazem parte do meu convívio familiar e social. Tentei entender, principalmente, os pensamentos antagonistas. Cheguei à infeliz conclusão de que, no fundo, não há pensamento.

As minhas percepções quanto ao comportamento são extensas. Impossível ser curto nessa análise, tentarei também não ser grosso. O trabalho perpetrado pela mídia plutocrática brasileira é digno de um Pulitzer na categoria (des) serviço público, já que o pensamento liberal está completamente implementado em nossa sociedade.
Principalmente a classe média assalariada acolheu sem restrições o conceito neoliberal de meritocracia e se acha totalmente responsável pelo seu destino, quando na verdade não é. A elite conseguiu, com maestria, convencer as pessoas que se o sucesso não é alcançado isso é culpa do estado ou de si próprio. Convenceram as pessoas de que a corrupção governamental é a peste de nosso país, quando na verdade vivemos uma democracia de cartas marcadas, onde o poder do capital elege legisladores que não são mais do que marionetes para o interesse privado. Os grandes empresários brasileiros pagam aos seus políticos vassalos apenas uma comissão sobre os seus ganhos e a massa de manobra, auto-intitulada esclarecida, atribui mais peso ao comissionado que ao patrão.
Claro que a corrupção é um problema. O elegido não deve colocar interesses pessoais ou de outrem à frente do coletivo, mas o capital que rege a democracia elege e destrói. Não há salvação fora da educação social e da conseqüente percepção da consciência de classe.

Somos livres para decidir o que queremos ser. Se atribuímos mais valor aos conceitos de esquerda ou de direita, pouco importa. Valioso é entender que a sociedade é formada por castas, observar em que camada estamos, e a partir daí formar um juízo de valor sobre o que é melhor para a as nossas posições atuais. O que ocorre no Brasil é uma supressão do conhecimento sobre teorias econômicas e da luta de classes.

A classe média assalariada se enxerga pagadora de tributos excessivos e sustentadora de quem está abaixo. Enxerga que dá ao estado muito mais do que recebe. Há nesse extrato da sociedade uma glamorização do empresário e da livre iniciativa, um clamor pela redução dos impostos e da interferência estatal, são contra o recolhimento de FGTS e os impostos sobre os produtos. Estamos falando de pessoas que ganham entre 30 e 60 mil reais anuais. Se você possui essa gama de pensamentos, pode ser considerado um pobre neoliberal. Mais do que isso, a elite brasileira conseguiu, antes de Donald Trump, erguer o seu muro contra pobres, um muro formado de outros pobres de panela na mão. O muro da classe média defende a elite da intervenção do estado, impostos sobre grandes fortunas, impostos sobre grandes heranças, leis trabalhistas, direitos previdenciários, enfim, defende ricos de tudo o que bom para pobres, seus iguais.
Ser liberal é uma opção, já nascer em uma família privilegiada ou necessitada, não. Essa segunda não é uma variável, já que não é opcional ser pobre ou rico, e é mais inteligente que você monte o seu plano de ação a partir de preceitos imutáveis. Não há na nossa educação base o ensino de economia, seja macro ou micro. O pobre neoliberal, que em geral estudou em escola pública ou na particular com muito esforço dos pais, não sabe o que é um modelo econômico, e isso é a supressão de conhecimento.

ONU e, pasmem, o FMI admitem que o modelo liberal é ineficiente contra a má distribuição de renda e não ajuda em nada a evolução dos países em desenvolvimento, como o Brasil. É claro que a política de estado mínimo privilegia apenas os donos dos meios de produção e da geração de capital, aumentando a desigualdade. A aplicação dos preceitos de Milton Friedman nos países ocidentais desde a década de 70 se mostrou ineficaz, aos países em desenvolvimento, no que tange o crescimento sustentado e a distribuição de riqueza.
Sendo assim, se você não detém os meios de produção, ou seja, se você não tem empresa e funcionários, e se você ganha pouco, você depende da atuação do estado para garantir as suas necessidades e direitos. Levantar a bandeira do liberalismo fará de você tão incongruente quanto um peixe que pede por menos água no rio. Se mesmo assim, sabendo que o liberalismo não serve para um país como o Brasil, e entendendo que você é dependente do estado, a sua escolha for por João Dória Jr, é válido, é democrático, é direito e é burro.

Triste mesmo é ver as pessoas assemelhadas a bovinos no pré-abate. Caminhando em um corredor de falácias e propaganda midiática da meritocracia, prontas para terem seus direitos e conquistas surrupiados por pessoas que só pensam em acumular.
Voltando para o meu mundo, a falta de consciência de classe impera nas análises do cenário político atual. Vejo amigos que passaram a adolescência escutando Racionais Mc’s e agora abraçam patos de borracha em frente à FIESP, o analfabetismo funcional da juventude se reflete nas atitudes do homem atual, e a incapacidade de entender a fundo a poesia da periferia transforma um preto tipo A num neguinho.

Vejo amigos que surfaram na onda de prosperidade do governo Lula, que os deu a possibilidade de ganhar hoje mais o que seus pais jamais receberam, mas agora repetem apapagaiados o discurso elitista de estado mínimo, privatizações e PT nunca mais. Boa parte de meus amigos é contra o recolhimento do FGTS, mas possuem apartamento financiado pela Caixa. Conheço pessoas que já fizeram tratamentos caríssimos contra o câncer, ou que conseguiram remédios de alto custo, todos pelo SUS, mas que vomitam ignorância ao falar da carga tributária. Imaginem o pobre neoliberal, sem o SUS, tendo que pagar quimioterapia, quanto do seu salário anual de 50 mil reais, já sem os demonizados impostos, seria utilizado para tal?

Parte da minha família, negra, é contra cotas. Engoliu e replicou o argumento falacioso conservador de que as cotas reforçam o preconceito, justamente como age um um certo vereador da capital . Não percebem que o passado escravo da pele é que formou essa sociedade 53% negra, mas que nas cadeias representa  67%. Antes dos programas governamentais para ingresso de pobres e negros nas universidades, apenas 5,5% dos jovens pretos (18 – 24 anos) freqüentavam a faculdade, isso em 2005. Em 10 anos esse número foi para 12,8%. Comparativamente, 17,8% dos jovens brancos, de mesma faixa etária, eram universitários em 2005, percentual que saltou para 26,5% em 2015. Ao avaliarmos que temos o dobro de pretos nas cadeias e o dobro de brancos nas universidades, podemos concluir que as cotas são correções históricas, mais que justas.

Os pobres neoliberais confundem a cobrança pela eficiência estatal com a destruição do estado. Jogar luz sobre esses aspectos deveria ser obrigação da parcela formadora de opinião da sociedade. O desserviço da imprensa brasileira ao bem estar social é gritante, pois essas grandes empresas particulares de concessão pública reportam à sociedade apenas os fatos pertinentes ao seu interesse econômico.

O desafio é fazer a grande massa entender que empresário não é gerador de empregos, mas sim gerador de lucro, e que se ele tiver a oportunidade de aumentar seus rendimentos em 20% ao custo de trocar todos os seus funcionários por máquinas, ele o fará.

Pobres neoliberais: Estamos em uma luta de classes, você está correndo para o lado errado, será golpeado pelas costas, cairá olhando em meus olhos, ainda defendendo o seu algoz.

sábado, 20 de janeiro de 2018

O governo Lula e o voto em Ciro


Antes de começar a defesa ao voto em Ciro Gomes, acho importante explicitar minha opinião sobre o governo Lula. Para mim, Lula foi o segundo maior presidente da história do Brasil, ficando atrás apenas de Getúlio. Foi responsável pelas maiores transformações sociais vividas neste país desde a era Vargas e o país nunca teve uma força no cenário geopolítico tão grande quanto em seu governo. O país saiu do mapa da fome. Paramos de ver repetidas matérias tratando da tragédia da seca no Nordeste. Para fazer isto, é fato, teve que se aliar ao que há de pior na elite empresarial e política, gente corrupta e mesquinha totalmente indiferente ao interesse nacional. Não vou, neste texto, focar nos efeitos negativos desta aliança. A grande mídia já alardeia isto o suficiente. Temos que tratar como fato histórico que ela existiu e que muito provavelmente as conquistas do governo Lula não seriam possíveis sem esta junção. Realpolitik na veia. A mesma coisa aconteceu no governo Juscelino, aliás. Não à toa, JK recebeu basicamente as mesmas acusações que Lula sofre agora quando a elite se cansou dele. As três vezes em nossa história republicana em que presidentes tentaram investir no social enfrentando esta turma resultaram em tragédias. O suicídio de Getúlio em 1954, o golpe militar contra João Goulart em 1964 e o golpe jurídico-parlamentar contra Dilma em 2016. O fato mais importante do desespero da elite corrupta em se livrar de Dilma é pouco falado, aliás. A Oderbrecht deu dinheiro a Pastor Everaldo para que ele ajudasse Aécio num debate em 2014. Aécio era um candidato tão ruim que precisava de ajuda para enfrentar Dilma, uma pessoa extremamente inteligente, mas com pouquíssima habilidade retórica, num debate.
Lula focou seu governo na inclusão de uma parcela significativa das pessoas no mercado de consumo. Isto inclusive na área educacional. Sem dúvida o país avançou gigantescamente nesta área. Pegando a minha bolha como exemplo, é enorme o número de pessoas que conheço que são da primeira geração de suas famílias a conseguirem fazer curso superior. Não acho que tenha sido feito da forma correta, com o Prouni funcionando quase como um seguro público para o desenvolvimento de faculdades particulares. Mas é inegável que isto foi um avanço dos maiores. Em qualquer outro lugar do mundo, um político que realizasse isto seria amado pela elite capitalista. Mais consumidores igual a mais lucro e sem dúvida os mais ricos ganharam muito dinheiro neste período. Isto não ocorre no Brasil, em que temos uma elite exclusivista, sem nenhuma visão de desenvolvimento nacional, e uma classe média que prefere se matar de trabalhar para garantir a si o prazer do que sobra desta elite do que lutar por algo maior. A elite corrupta se cansou de dividir qualquer coisa com o resto da sociedade e não quer mais saber de Lula. Como justificativa, usam o mais elitista dos poderes para combater de forma seletiva a corrupção. Num processo farsesco, provavelmente condenarão Lula e vão torna-lo inelegível para 2018 graças à reforma de um apartamento que nunca foi dele.
Lula tem todo direito de ser candidato. Uma eleição em que o primeiro colocado se torna inelegível desta forma bizarra não pode ser levada a sério. Lula, porém, não deveria querer ser candidato, por vontade própria. O momento histórico para a esquerda sair da lulodependência é agora. Lula goza de boa saúde, felizmente, mas já tem 74 anos e não vejo preocupação alguma nele e no PT em criar algum tipo de sucessor ao ex-presidente. Não que seja possível alguém ter o grau quase “mítico” que Lula possui, fruto não apenas das transformações de seu governo, mas de sua incrível história de vida, mas é chegada a hora de Lula transferir este patrimônio político a alguém.
A direita no Brasil é golpista e burra e está se dividindo em zilhões de candidaturas para 2018. Até Fernando Collor está querendo sair candidato. No momento, Alckmin, Álvaro Dias, Henrique Meirelles, Rodrigo Maia, Paulo Rabello (presidente do BNDS) e agora Collor já declararam intenção de candidatura. Há ainda a candidatura circense de Luciano Huck, uma espécie de Dr. Rey mais apresentável e, claro, a candidatura fascista de Bolsonaro.
Vivemos num momento em que 1/5 da população brasileira se dispõe a votar num candidato fascista. Mesmo que este número caia até a eleição, o que é bem provável, pois este candidato começou a ser bombardeado pela mídia, que sempre se silenciou em relação às barbaridades ditas por Bolsonaro, mas que agora precisa fazer com que os fascistas voltem a apoiar o PSDB, qualquer pessoa que em algum momento já se mostrou disposta a votar num candidato destes merece ser chamada de fascista. Um grupo de jovens fascistas já participa diretamente da gestão de duas das cinco maiores cidades brasileiras, São Paulo e Porto Alegre. Enfrentar esta onda de ódio direitista deve ser a maior prioridade do momento e qualquer divergência programática entre grupos de esquerda deve ser desconsiderada numa aliança, neste momento. A candidatura Lula, neste cenário atual, só serviria de motor a estes grupos fascistas. Ser anti-Lula é tudo que eles sabem fazer. O que os incomoda não são os erros do governo Lula, e sim os acertos.

Neste cenário, o candidato de centro-esquerda que me parece ser o nome mais competitivo e ideal é Ciro Gomes. Político experiente, esteve do lado certo da história nos três momentos mais cruciais que nosso país viveu desde o fim do Regime Militar. Foi Ministro da Fazenda do Plano Real, fez parte do ministério do primeiro governo Lula, possivelmente o melhor ministério que o país já teve, e esteve sempre contra o impeachment de Dilma Rousseff, mesmo nos momentos em que havia uma grande pressão midiática sobre este assunto. Sempre denunciou os erros do governo Lula, reconhecendo também seus grandes acertos e a evolução do país neste período. Mas, mais importante de tudo, é o único nome competitivo a criticar o modelo de desenvolvimento baseado no consumo. A mídia esconde, mas em qualquer sondagem sem o nome de Lula, Ciro aparece em segundo, empatado com Marina Silva. Outras candidaturas de esquerda podem surgir. Manuela D’Avila já anunciou seu interesse. É fundamental, porém, que a esquerda não se divida neste momento em que algo muito sério está para acontecer. A onda fascista unida ao esforço do mercado em desmontar o estado brasileiro exige pragmatismo. Lula, vítima de uma perseguição nojenta, enalteceria ainda mais sua já gloriosa biografia se o apoiasse. O mesmo acontece com os demais partidos de esquerda.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O Bolsa-Família libertou pessoas


Presidente da Câmara, o deputado Rodrigo Maia expressou hoje um sentimento que há muito tempo toma conta de boa parte da classe média e da elite brasileira e, por mais que se tente negar, é uma das bases da rejeição a Lula e ao governo petista. Segundo Maia, o Bolsa-Família “escraviza” pessoas. A ignorância e o preconceito de pessoas como Maia contra o programa e contra as pessoas beneficiadas por ele estão explícitos nesta frase, que tem tido menos repercussão do que deveria.
O Bolsa-Família libertou pessoas. É sem dúvida a maior conquista brasileira do séc. XXI. Deveria ser o grande orgulho da nossa geração. Fora o fundamental fato de que tirou milhões da miséria e tirou o Brasil do mapa da fome extrema no mundo, o programa deu a milhões de pessoas uma possibilidade libertadora, a possibilidade de dizer não a trabalhos extenuantes e mal-remunerados. Antes do programa, a população mais pobre era obrigada a aceitar basicamente qualquer migalha para não morrer de fome, recebendo uma baixíssima remuneração por trabalhos duríssimos. Tendo uma renda básica garantida mensalmente, que permite resolver suas necessidades básicas, os beneficiados puderam ter a chance de dizer não a condições exploratórias. O Bolsa-Família foi um dos principais motivos para o aumento na remuneração de serviços aos quais a classe média e a elite estavam acostumadas a pagar merrecas. O programa deu alguma capacidade de negociação a estes trabalhadores. Quantas pessoas das classes mais abastadas não ouvimos nos últimos 15 anos reclamando que “um pedreiro ganha muito” ou que “está impossível pagar uma empregada” e, principalmente, “não sei quem não quer sair de casa para trabalhar não”?
O Brasil foi um país fundado tendo como base a escravidão e carrega desta época inúmeras e gigantescas consequências. Disse Joaquim Nabuco em O Abolicionista que após a abolição o Brasil entraria numa nova fase, ainda terrível e que duraria pelo menos trezentos anos, a fase das consequências da escravidão. Uma destas consequências é a incapacidade de nossa elite e de nossa classe média, louca para se sentir elite, de valorizar o trabalho, principalmente o braçal. Paga-se muito em supérfluos e pouco em trabalho. O Bolsa-Família obrigou esta turma a pagar mais para manter certos privilégios. Isto gerou revolta numa turma que não está acostumada a ser contrariada.

Rodrigo Maia nunca fez nada na vida. Filho de Cesar Maia, prefeito do Rio duas vezes, arrumou um emprego num banco de um amigo do papai aos 20 anos. Aos 26, arrumou um cargo de Secretário de Governo da Prefeitura do Rio com o sucessor de papai, Luiz Paulo Conde, na época em que eles ainda eram amigos. Aos 28 anos, em 1998, começou a parasitar na Câmara dos Deputados, graças ao apoio do ainda popular papai. Vinte anos depois segue no mesmo lugar, sem nenhum projeto importante. Assumiu a presidência da Câmara após o impeachment fajuto de 2016, o qual apoiou. Quase virou presidente em 2017, sonha em virar presidente em 2018. Candidato a prefeito do Rio de Janeiro em 2012, teve magníficos 4% dos votos na capital fluminense. Repetindo, Rodrigo Maia nunca fez nada na vida. Pessoas como ele são contra o Bolsa-Família. Querem continuar pagando pouco para as pessoas que fazem tudo, podendo assim continuar a fazer nada pagando pouco. Maia é herdeiro do pensamento escravista que moldou o país e que faz com que um programa como o Bolsa-Família, premiado mundialmente e que serviu como exemplo e inspiração em outros lugares do mundo, seja absurdamente contestado internamente. Maia disse a frase sobre o Bolsa-Família a empresários brasileiros em Washington. Pessoas como ele. Continuou seu discurso falando mal também do Projeto “Minha Casa Minha Vida” e falando aquele blábláblá de sempre sobre carga tributária, que rico adora ouvir. Falou também sobre combate à corrupção. O Botafogo.  A elite corrupta finge se preocupar com a corrupção. Mas só a usa como argumento para manter seus domínios. Ela só quer pagar menos para a empregada, para a babá e para o pedreiro. Assim sobrará mais dinheiro para gastar com as férias da família na Disney.

domingo, 14 de janeiro de 2018

O racismo e arrogância de William Waack


William Waack escreveu um texto em sua própria defesa para a Folha de São Paulo. Acusado de racismo após a divulgação de um vídeo em que faz uma “piada” que hoje julga “infeliz”, o texto de Waack é quase um clichê de pessoas infratoras que tentam a todo custo se transformar em vítima. Waack se considera vítima de tudo e de todos. Acusa os rapazes que divulgaram o vídeo e cria quase uma teoria da conspiração sobre o papel das redes sociais sobre a grande mídia para justificar a pressão que resultou em seu afastamento. Em um dado momento, inclusive usa, fingindo não usar, a frase mais clichê de pessoas racistas tentando provar que não são racistas: “Eu até tenho amigos negros”.
Sim, a partir da “piada” é possível se concluir que William Waack é racista. Verbo no presente. As pessoas que o fazem não estão erradas. A única possibilidade de mudar o tempo verbal para uma pessoa que disse o que Waack disse seria o reconhecimento total do erro e um sincero pedido de desculpas. Waack o faz de forma quase envergonhada no final apenas para tentar se enaltecer, sempre tentando minimizar o peso da chacota. “Vejam a minha carreira”, diz ele. Não há nada em sua carreira que diga que ele não é racista.
A “piada” de Waack é a definição de racismo. Num momento histérico, afinal o que justifica alguém ficar tão nervosinho apenas porque alguém buzinou na rua, o jornalista solta uma série de impropérios contra uma pessoa que não conhece, culminando com a “piada” fatal e as risadinhas. Waack deixa claro no vídeo que julga um comportamento inadequado como sendo típico de pessoas de uma determinada cor de pele. “Coisa de preto”. Repito, isto é a definição de racismo. Waack deveria estar feliz por ter sido apenas demitido. Cometeu um crime e deveria estar respondendo a um processo criminal, embora eu sinceramente não saiba quais são as determinações da Constituição Brasileira (se é que ela existe ainda) para um caso de racismo cometido fora do território brasileiro.
Waack se consagrou nos últimos anos como porta-voz da classe média e da elite corrupta que foram às ruas de verde-e-amarelo bradar contra a corrupção. Defensor do punitivismo e do moralismo, mostra-se extremamente leniente quando o assunto é o crime que ele mesmo cometeu. Sempre elogiando o mecanismo das delações premiadas, mostra-se revoltado contra a delação da qual foi vítima. Típico dos seus telespectadores, afinal.
Na sua defesa fajuta à Folha de SP, Waack diz que a sua demissão é fruto da “covardia” da grande mídia em lidar com a pressão de “grupelhos” de redes sociais. Mais uma vez erra. Sua demissão se deu porque ele foi racista. Apenas por isto. Ele não é vítima de ninguém, senão de si mesmo. Como tudo na televisão, Waack era um produto. Valia a pena para a TV Globo porque vendia, tinha credibilidade junto ao público de classe média e de elite. Era o jornalista cuja palestra era a mais cara. Perdeu esta credibilidade ao se mostrar racista, levando anunciantes a temerem a possibilidade de verem suas marcas associadas a um nome manchado como o dele. Acredito que boa parte de seu público inclusive o perdoou, se é que enxergou algum erro na piada, uma vez que muito provavelmente se identificam com o jornalista até nisso. Os números de Bolsonaro entre os mais ricos, alcançando mais de 30% das intenções de voto, mostram isto.

Por último, o fato de Waack enxergar a própria demissão como símbolo de algo “maior” é um grande sinal de arrogância. Waack não faz falta alguma. A audiência dos programas que apresentava segue sendo a mesma. Há algum tempo, a jornalista Rachel Sheherazade foi proibida de dar comentários pessoais no SBT após defender o linchamento de um jovem contraventor no Rio de Janeiro. Foi contratada pela rádio Jovem Pan de São Paulo para dar suas opiniões. A mesma rádio já se mostra interessada pelo ex-global. Waack supervaloriza sua própria importância. Não passa de uma Rachel Sheherazade com grife.

sábado, 6 de janeiro de 2018

O pastor Meirelles, as ovelhas e as eleições de 2018


Henrique Meirelles sonha ser presidente da República. Ex-presidente do Banco Central durante a gestão Lula, tendo assumido este cargo três meses após ser eleito senador pelo PSDB em Goiás, mostra-se desde sempre uma pessoa maleável do ponto de vista político. Presidente da J&F, dona da JBS, durante boa parte do período de crescimento financiado pelo poder público da empresa, tem sido poupado pelo Poder Judiciário inquisidor até o momento. O ex-senador do PSDB que se tornou ministro da gestão petista aceitou em 2016 ser ministro da gestão do PMDB, que era vice na chapa do PT, mas se aliou ao PSDB para chegar ao poder através de um impeachment mal explicado. Meirelles, aliás, hoje é do PSD, partido cujo lema é “O Partido sem Ideologias”.
Meirelles tenta agora obter apoio da camada evangélica para realizar seu grande sonho. Para isto, tem feito diversas reuniões com lideranças religiosas e frequentado cultos, onde às vezes até cria coragem para pregar. Não é tão difícil para uma pessoa como Meirelles chegar a um discurso que agrade pessoas que se consideram fiéis a uma entidade superior. Os evangélicos acreditam em Deus, uma pessoa ou instituição invisível, que mora no céu, que enxerga tudo que você faz e está com você o tempo todo, que te beneficiará se você fizer aquilo que ela gosta e te punirá caso você faça algo em desacordo com suas leis (estou quase copiando um texto de George Carlin aqui, aliás). Henrique Meirelles é neoliberal e acredita no mercado, uma instituição invisível, que enxerga tudo que você faz e está com você o tempo todo, que te beneficiará se você fizer aquilo que ele gosta e te punirá caso você faça algo em desacordo com suas ideias. Basta a Meirelles dizer nestes templos aquilo em que acredita, substituindo a palavra mercado pela palavra Deus, e ele arrebatará os fieis.
Uma tônica da próxima eleição será a união entre forças religiosas e conservadoras e o mercado. Um precisa do outro para conseguir ir ao segundo turno enfrentar provavelmente o candidato de Lula. Por isso, Bolsonaro tem se reunido com líderes do mercado, até contratou uns economistas para lhe dizer exatamente o que ele deve falar nestes encontros, e os candidatos de mercado têm ido atrás de líderes religiosos. O discurso é quase sempre o mesmo, o estado não deve interferir na economia, mas pode interferir em outros aspectos, como em questões de opções sexuais, por exemplo. Liberdade para o dinheiro, encheção de saco para as pessoas, este é o lema.  Aplausos são ouvidos cada vez que o termo “redução de impostos” é dito. Ricos e Igrejas odeiam pagar impostos, afinal.

Se conseguir fazer vingar sua candidatura, Meirelles tentará dizer que a gestão petista “destruiu o Brasil”, ao mesmo tempo em que dirá que o período em que foi ministro, durante a era petista, foi um período maravilhoso. Precisará chegar ao segundo turno e obter 50% dos votos. Em todas as pesquisas, até o momento, aparece com 2 ou 3%. Tem como grandes marcas na sua gestão como Ministro da Fazenda as Reformas Trabalhista e da Previdência, ambas rejeitadas pela maior parte da população e que só foram possíveis porque foram realizadas por um governo que não passou pelas urnas. Mesmo assim, Meirelles acredita que será eleito. Haja fé !

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O típico gestor do setor privado não sabe fazer nada


O típico gestor do setor privado não sabe fazer nada. Esta é a tese que apresento neste texto e antes de explica-la acho importante fazer algumas introduções. A primeira é sobre o que será considerado como “gestor do setor privado” durante as próximas linhas. Não me refiro àquele pequeno empresário, que começou de baixo e hoje é dono de um pequeno empreendimento qualquer. O termo será usado especificamente para os gestores de grandes empresas, os CEOs, pessoas de cabelo cortadinho, que adoram usar termos em inglês mesmo existindo palavras em português que representem a mesma coisa e que fazem MBA na FGV de “Gestão de Negócios”. A segunda, e não menos importante, é que quando me refiro a “fazer nada” não estou me referindo ao fato de que estas pessoas não saem de um lugar para outro dizendo que vão trabalhar. Pelo contrário, estes gestores inclusive acreditam muitas vezes que trabalham muito, o que será abordado futuramente. Chamo de fazer algo a produção de qualquer coisa, uma mercadoria ou um serviço, do mais simples ao mais complexo. Isto dito, creio que posso começar o texto propriamente dito.
O típico gestor do setor privado não sabe fazer nada. No parágrafo anterior, esqueci-me de mencionar que este texto fará generalizações. Provavelmente existem por aí um ou outro gestor do setor privado que saiba fazer algo na vida, mas creio que não erro tanto afirmando que são poucos, permitindo-me, portanto, a elaboração deste tipo ideal. Este típico gestor privado é incapaz de produzir qualquer coisa. Nada. Nadinha. Tudo que ele consegue é mandar alguém fazer. Pelo próprio esforço, não sabe fazer nada. É por isso que estão sempre com um telefone funcionando por perto, a qualquer momento alguém pode precisar que eles façam algo e, como não sabem, terão que recorrer a alguém que saiba. No ápice da incapacidade de fazer algo, inclusive, contratam até alguém para atender telefones ou fazer uma ligação. Possuem dependência total de outras pessoas para a realização de qualquer tarefa profissional ou pessoal. Normalmente não sabem realizar as atividades domésticas e nem cuidar dos filhos, por exemplo.
A parte mais bizarra do comportamento deste típico gestor do setor privado é que na maioria das vezes eles não sabem que não sabem fazer nada. A mentira é tão bem contada que muitas vezes a própria pessoa que a vive acredita nela. Este gestor passa a maior parte da sua vida fazendo algo que chama de trabalho, ou pelo menos pensando nele. Estão o tempo todo correndo de um lado para outro com um telefone na mão, sempre ligando ou importunando uma pessoa que saiba fazer algo que ele é incapaz de fazer. As conversas com estes gestores quase sempre são mais longas do que deveriam ser. Como ele na verdade não tem nada para fazer, tem tempo para importunar a pessoa que faz algo. As reuniões destes gestores costumam ser eternas, principalmente quando estas reuniões envolvem apenas pessoas deste seleto grupo dos que não sabem fazer nada. Podem passar horas discutindo quem fará o que, uma vez que eles mesmos não têm nada para fazer. Almoços longos de negócios em que nada é feito também dão à tônica disto que se tornou praticamente um estilo de vida.
Gestores normalmente não gostam tanto de tirar férias. Estas servem para não fazer nada, no entanto não faz sentido para eles saírem do lugar em que não fazem nada para não fazer nada. Também estão quase sempre descansados. Dormem pouco. Faz sentido, uma vez que cansaço é típico apenas de pessoas que fazem algo. Não percebem quase nunca que esta “qualidade” nada mais é do que uma demonstração de que não sabem fazer nada.
Gestores do setor privado que não fazem nada são hoje quase como uma casta fechada. Quase toda semana eles têm algum tipo de evento. São festinhas particulares em que estas pessoas que não fazem nada se encontram e passam a noite celebrando o fato de não fazer nada, discutindo o nada que fizeram em suas vidas nos últimos tempos. São extremamente cordiais e educados entre si, podendo relaxar do stress do dia-a-dia, normalmente causado pelas pessoas que fazem algo. Como não fazem nada e deixam sempre a realização de algo para outra pessoa, estes gestores acham que fazer algo é uma coisa fácil. Por isso são sempre impacientes e arrogantes. Tudo que os outros fazem é mais fácil do que o que fazemos aos nossos olhos, isto é humanamente compreensível. Para estes gestores, portanto, não fazer nada é algo mais difícil do que fazer algo.
Eles estão sempre bem vestidos e limpos. Não fazer nada não suja nem cansa e boa aparência é fundamental para ser inútil e respeitado. A preocupação com a aparência surge como um algo nesta ausência do que fazer. Fazer algo cansa e suja, afinal. Outro motivo para que eles não gostem tanto de férias, é que é neste período que mais fica clara a ausência de utilidade deles no mundo corporativo. Quem cobre férias do gestor? Normalmente ninguém, uma vez que não há nada para fazer. O medo das férias surge como uma espécie de autodefesa quase que inconsciente destes seres que, talvez no fundo, saibam que não fazem nada. Talvez, naõ tenho conclusão a respeito disso. Também não conhecem profundamente nenhum assunto. Decoram duas ou três frases soltas sobre a maioria dos assuntos e conduzem as conversas dessa maneira, quase sempre arrumando um jeito de enfiar um termo em inglês em alguma frase.
Em 2016, a maior cidade do país escolheu pela primeira vez ser governada por uma pessoa que não sabe fazer nada. SP teve prefeitos de diferentes ideologias na história, mas, goste-se ou não deles, acho que todos efetivamente sabiam fazer algo, sejam eles engenheiros ou professores. João Doria Jr. Nunca fez nada na vida. Vindo de uma família rica, seu pai foi deputado cassado pelo regime militar. Voltou anos depois e, contando com a simpatia dos intelectuais anistiados que formariam o PSDB, arrumou uns empregos para o filho. Com o tempo, Doria Jr. Fundou uma empresa chamada Lide, que ninguém sabe direito se realmete existe, que patrocina eventos entre gestores que não sabem fazer nada e políticos do PSDB. Este grupo talvez fictício fundou também algumas revistas, voltadas para gestores que não sabem fazer nada, que só lucram porque recebem verbas públicas de governos tucanos. Comprou horários noturnos em redes de TV quase falidas para apresentar um programa de entrevistas que ninguém assistia, em que conversava quase sempre com outros gestores que não fazem nada ou com políticos tucanos. Também apresentou as edições mais mal-sucedidas do programa O Aprendiz, em que jovens que sonhavam em entrar para a casta dos gestores que não fazem nada se sujeitavam a serem humilhados por gestores que não fazem nada. Em seu primeiro ano na gestão pública, Doria cumpriu sua principal promessa, levar suas habilidades de gestor do setor público ao setor privado. Em um ano, não fez nada. Viajou bastante e, de verdade, não fez nada. Ficou feliz ao dizer que dormia pouco, indício de que realmente não faz nada.

A ascensão da figura deste tipo de gestor, que ocorre não apenas no Brasil, é um sintoma grave de um problema social que vivemos, em que a aparência se sobrepôs à essência. Um número cada vez maior de jovens de diferentes grupos sociais admira este tipo de figura que nada produz de relevante. Notícias sobre queda no mercado de ações, por exemplo, geram mais impactos muitas vezes na cabeça de trabalhadores de classe média do que questões de previdência, mesmo que estes não tenham nenhuma ação de empresa alguma. A vitória de Doria em 2016 em todas as regiões da maior cidade do país mostra isto com clareza. É a principal inversão que explica o momento atual do capitalismo, em que a inutilidade é remunerada e respeitada. E anda sempre bem vestida.